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Cláudio Jorge

Preguiçosamente fazendo bico na apresentação daquele baile de sábado, num clube do subúrbio, um velho locutor diria que “Cláudio Jorge dispensa apresentações”. E não é que ao menos desta vez o malandro teria razão?

Basta ouvir “Samba jazz, de raiz”, a faixa que abre este quarto álbum exclusivamente autoral de Cláudio Jorge – dentre tantos em que ele abordou obras alheias ou fez em parceria – para entender tudo. A letra já seria em si uma apresentação do disco: “Vou pedir passagem para explicar meu samba/É tipo samba jazz mas ele tem raiz/Se liga nesse toque, o rótulo proclama/É linguagem africana, assim a história diz”. A letra explica a forma: “Vem com baixo de pau, mas suingue de bamba/É pura malandragem que me faz feliz/O samba é bom de se tocar, bom de improvisar…”. E o contexto histórico, além dos personagens: “Mas quando o samba encontra o jazz/Alguma coisa se refaz/Dá pra perceber no som/Tá lá no que tocou o J.T. Meirelles, no baixo do Luizão e no Dom Salvador/No Edison Machado, no Wilson das Neves/O groove lá do jazz que o samba arredondou”.

Está lá, trata-se de um disco autoral, de canções, mas inspirado no universo dos conjuntos instrumentais dos anos 60, originários de bailes, estúdios e gafieiras, que misturavam samba e procedimentos do jazz, com possíveis arranjos e saxofones do Meirelles, o baixo do Luizão Maia, o piano e o conjunto do Dom Salvador, Edison Machado ou Wilson das Neves na bateria.

Mas, antes de tudo, “dá pra perceber no som”, na forma com que Cláudio Jorge apresenta sua composição metalinguística tanto na letra como no arranjo: um power trio de (samba) jazz formado por seu violão, o melhor violão do samba, seguro, suingado, elegante, “de baile” na mão direita mas cheio de invenções harmônicas na esquerda; o contrabaixo acústico (“de pau”) de Zé Luiz Maia, filho e herdeiro em estilo e suingue do citado Luizão Maia, e bateria do próprio Wilson das Neves, o lendário baterista do samba (e do samba jazz original), em uma das suas últimas gravações no instrumento que ajudou a abrasileirar. E, 
noblesse oblige, fiel a si mesmo e ao estilo que evoca e atualiza, Cláudio Jorge ainda apresenta logo na faixa de abertura um elegante e preciso solo de guitarra, comprovando mesmo que “o samba é bom de se tocar, bom de improvisar”.

Pronto. Está feita a apresentação, em forma de música, de “Samba Jazz, de Raiz. Cláudio Jorge 70”, o novo disco do bamba, talvez seu trabalho mais rigorosamente conceitual, sem, contudo, perder jamais a delicadeza e a individualidade de cada canção, aliás, um lote de 13 canções inéditas e duas regravações.

Se no primeiro LP, lançado pelo Odeon em 1980, o jovem violonista flertava com o ecletismo da MPB então vigente que ia de uma nítida influência do Clube da Esquina (“Dia da criação”, por exemplo) a um samba de sucesso em parceria com João Nogueira (“Pimenta no vatapá”) e uma valsa (sim, uma valsa!) com Cartola (“Fundo de quintal”), na obra-prima “Coisa de Chefe” (Carioca Discos, 2001) o já consagrado compositor apresenta um tratado sobre o samba, inclusive o samba jazz (no tema instrumental “Samba pro Luizão Maia”). E em “Amigo de Fé” (Carioca Discos, 2010), disco sereno de sua maturidade artística, aborda a influência do candomblé, sua religião, no samba e na música brasileira em geral.

Neste “Samba Jazz, de Raiz. Cláudio Jorge 70”, e por favor com jogo de palavras, ele radicaliza, vai mesmo à raiz do subgênero esquecido e muitas vezes mal compreendido – o próprio Vinicius de Moraes, sempre tão atento, dessa vez classificou-o como um “híbrido espúrio, nem samba nem jazz” – e à raiz da sua própria formação musical. Nascido no subúrbio carioca nos melhores dias, criado no Cachambi tão perto daquele Méier epicentro dos bailes de clubes nos anos 50, 60 e 70, Cláudio Jorge foi embalado pelos conjuntos dançantes daquela época, justamente na fase em que aprendeu sozinho o instrumento no qual hoje é um mestre. Não por acaso, debutou no conjunto de seu futuro parceiro João Nogueira, também do Méier, que no início da década de 70 inovou ao incluir baixo e bateria no acompanhamento do samba, herança direta dos bailes e do samba jazz na raiz. Sua relação com o samba jazz é assim tão íntima, que Cláudio Jorge escolheu esse tipo de som e esse conceito para o disco que também comemora os seus 70 anos de idade.

Hoje, consagrado como cantor, compositor e violonista (do conjunto de Martinho da Vila e das gravações de samba que se prezem), e em sua carreira com passagens pelos conjuntos de Sivuca, de Luizão Maia e do Batacotô é possível ver no estilo de Cláudio Jorge traços inconfundíveis de samba jazz. Neste “Samba Jazz de Raiz” isso fica evidente em cada detalhe. Como no naipe de saxofones que introduz e o sax barítono que pontua e sola na alucinante levada de “Denise”, samba sincopado de gafieira da irresistível dupla Cláudio Jorge & Nei Lopes, tudo a cargo do saxofonista e maestro Humberto Araújo, ele próprio um cultor do samba jazz contemporâneo à frente de sua Orquestra Criola.

E, a perceber em todas as outras participações do disco, Cláudio Jorge parece fazer uma espécie de seleção de músicos da atualidade que dialogam com o velho gênero, gente como o guitarrista uruguaio Leonardo Amuedo (solo em “Vila Isabel”), que foi anos da banda de Ivan Lins e hoje, não por acaso, está radicado nos Estados Unidos dedicado ao jazz, ou os pianistas Fernando Merlino (em “Doce realidade”), Itamar Assiére (em “Vai ser bom ser sempre assim”), velho companheiro do Batacotô e do grupo de Luizão Maia, ou o parceiro Ivan Lins num raro solo de piano em “Você pra mim, eu sou pra você”. Mesmo a participação de Kiko Horta no acordeom em “Paixões imortais” vai na linha dos contrapontos de inspiração jazzística de um Sivuca ou mesmo Dominguinhos.

Essa discreta sofisticação musical nos detalhes, em certo sentido também irmanados com o jazz, pode ser observada na participação de um Mauro Diniz cantando em “Doce realidade”, uma parceria com Wilson Moreira. É como se Cláudio Jorge sublinhasse a qualidade extraordinária da melodia de Wilson Moreira e a elegância vocal de Mauro Diniz (dono de um cavaquinho virtuose, além de notável e moderno arranjador e produtor), dois sambistas de origem popular, do universo das escolas de samba e de um nível musical geralmente não associado a essa origem.

Como que ampliando o conceito samba jazz, Cláudio Jorge mostra que, na verdade, se trata do diálogo do samba com outros gêneros musicais que vão cruzando seu caminho. Assim é a participação do roqueiro Roberto Frejat, guitarra e voz, no baião pop “Central do Brasil”, segunda regravação do disco, do primeiro LP de 1980, canção feita com seu primeiro parceiro, Ivan Wrigg.

Neste mesmo sentido do intercâmbio de linguagens, a cantora e compositora por excelência da MPB Fatima Guedes faz participação vocal em “Você pra mim, eu sou pra você”, a faixa que encerra o disco como uma homenagem a um grande amigo de Cláudio Jorge, o falecido Paulinho Albuquerque, não somente produtor de “Coisa de chefe” e “Amigo de fé” e dos melhores discos do parceiro Ivan Lins e da própria Fatima Guedes, como uma das pessoas que mais o informou sobre jazz, cultor que era desse universo musical, um dos curadores do famoso Free Jazz Festival.

Ao revisitar sua carreira e o diálogo de sua música com linguagens variadas, Cláudio Jorge não poderia deixar de fora a sua experiência religiosa, na macumba-jazz “Com a fé que Deus me deu”, com a participação de músicos profissionais excepcionais como Luís Filipe de Lima (violão de sete cordas), Dirceu Leite (clarinete), Victor Neto (flauta), Walter d’Ávila (guitarra) mas também, nos atabaques, um pai de santo, Cacau d’Ávila.

Os gêneros dançantes latinos, do bolero ao cha-cha-chá, que tanto influenciaram o jazz e a moderna música brasileira, estão presentes no beguine “O peso de um não”, que conta com outra participação importante, o percussionista Peninha no bongô, ele assim como Frejat da banda de rock Barão Vermelho, numa de suas últimas gravações antes da morte precoce.

Mas na verdade, um disco de samba jazz de raiz não seria nada sem a cozinha que faz a cama para o violão de Cláudio Jorge suingar como nunca: Camilo Mariano na bateria emulando o jeito de Das Neves e Edison Machado, aquela pegada leve porém firme, precisa, e revezando-se nos baixos acústico e elétrico, Zé Luiz Maia e Ivan Machado, seu colega no conjunto de Martinho da Vila, ex-Batacotô, igualmente uma lenda do suingue carioca em seu instrumento.

E menos ainda sem a qualidade das canções, parcerias antigas como “Vila Isabel”, com o falecido Manduka e lançada apenas num velho compacto; a primeira com Paulo César Pinheiro (a valsa “Paixões imortais”) até parcerias recentes como a com Wanderson Martins, mestre do cavaquinho da banda de Martinho da Vila, autor da melodia da sofisticada canção “Vai ser bom ser sempre assim” e, no mais improvável dos diálogos, o “roqueiro” pernambucano Lula Queiroga, autor da letra do samba clássico “Maneira de dizer”.

Quando autor de letra e música, caso por exemplo de “Coração lan house”, Cláudio Jorge busca, como na estrutura musical, um novo vocabulário para o samba em eras virtuais. Mas a canção que talvez melhor simbolize este “Samba jazz de raiz” seja “Curiosidades”, uma parceria com o próprio Wilson das Neves, o imenso baterista do samba jazz que se transformou, ele próprio, num tremendo cantor e, principalmente, compositor. (Aqui cabe um parêntese, em grande parte da sua vida de compositor, foi a Cláudio Jorge que Das Neves recorria para harmonizar as melodias que criava, transformando-o num ouvinte privilegiado de suas composições, resultando daí várias parcerias dos dois).

Como na música-título, “Curiosidades” tem Wilson das Neves na bateria, Zé Luiz Maia (e o espírito de Luizão) no baixo acústico, e Cláudio Jorge segurando o suingue no violão e o solo na guitarra. E um recado do Das Neves para a posteridade num áudio vazado lá no finalzinho: “Vamos ouvir, né?”. Puro samba jazz. De raiz.

Hugo Sukman.

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