João Donato

Gravado em 2014, ano em que João Donato de Oliveira Neto completou 80 anos de idade, “Bluchanga” estava restrito a um pequeno círculo, privilegiados que, no fim daquele ano, receberam o brinde distribuído pela empresa patrocinadora. Agora, este que é um dos melhores discos do pianista, compositor e arranjador nascido em Rio Branco, no Acre, ganha uma edição comercial e reafirma a força e a originalidade de um dos mais universais criadores da música brasileira.

Ao mesmo tempo, contemporâneo e atemporal, “Bluchanga” tanto remete aos primeiros trabalhos solos de Donato no início dos anos 1960 quanto ao recente “Sambolero” – este, gravado em fins de 2008 e lançado em 2010, foi premiado no Grammy Latino daquele ano como o Melhor Álbum de Jazz Latino. Ambos produzidos por João Samuel, os dois discos têm muitos pontos em comum, avançando na veia instrumental do pianista. Com cinco anos de intervalo, as sessões aconteceram no mesmo estúdio Cia dos Técnicos, em Copacabana, e a principal diferença está na formação instrumental: enquanto “Sambolero” traz o já clássico João Donato Trio (completado por Robertinho Silva na bateria e Luiz Alves no contrabaixo) e ainda o percussionista Sidinho Moreira; em “Bluchanga”, esses mesmos músicos ganharam a companhia de Leo Amuedo (guitarra e violão), Ricardo Pontes (sax alto e flauta) e José Arimateia (flugelhorn e trompete). Liderando esse poderoso septeto, Donato navega com técnica e tesão pelo seu pioneiro amálgama de samba, jazz e ritmos afro-cubanos. Este último ingrediente é fruto da profunda imersão na cena do jazz latino, no início dos anos 1960, quando, radicado nos Estados Unidos, onde viveu até 1973, Donato tocou e gravou com mestres dessa vertente como Mongo Santamaria, Eddie Palmieri, Cal Tjader e Clare Fischer.

O repertório de “Bluchanga” promove um passeio por diferentes períodos da carreira de Donato. Ele assina sozinho seis faixas, incluindo dois temas criados nos anos 1960 que continuavam inéditos (“Trident” e “Uma para o Duke”); faz duas homenagens a amigos e gigantes do jazz que tinham partido recentemente, “The Mohican and the Great Spirit” (composição de Horace Silver, que nos deixou em junho de 2014) e “Morning” (de Clare Fischer, morto em janeiro de 2012); e ainda retoma uma música da dupla de amigos bossa-novistas Tita & Edson Lobo, “Uma benção” (que fora gravada no CD “João Donato reencontra Tita”, em 2004).

Faixa que dá título e abre o álbum, “Bluchanga” foi composta por Donato durante seu período de quase dois anos no grupo do percussionista cubano radicado nos EUA Mongo Santamaria. O nome é um silogismo que ele criou a partir de “blue-charanga”, homenageando a Orquestra Sabrosa de Mongo, sendo “charanga” a forma como os cubanos chamavam suas orquestras típicas. Em 1962, “Bluchanga” foi escolhida pelo percussionista para abrir o disco “Mighty Mongo”; também abrindo o ao vivo “At The Blackhawk”. Logo em seguida, seria regravada no Brasil pelo compositor, em “A bossa muito moderna de João Donato e seu Trio” (1963).

As duas até então inéditas estavam num caderno de composições que Donato guardava desde 1966. “Trident” é uma referência ao restaurante e bar de mesmo nome em Sausalito (em São Francisco) no qual ele tocou com seu trio naquele ano, em show que contava com a participação especial de Chet Baker. A temporada seguia muito bem, mas, após algumas semanas, o trompetista perdeu os dentes da frente após uma briga com traficantes, sendo substituído à altura por outro grande jazzman amigo de Donato, o saxofonista Bud Shank. Dramas à parte, “Trident” mantém o espírito alegre e de descobertas que pautava a Califórnia da época, quando o movimento hippie dava seus primeiros passos e o brasileiro flanava com seu piano pelos EUA. Já “Uma para o Duke” revela a paixão de Donato pela obra do pianista e band leader Duke Ellington.

Três músicas de Donato que depois ganharam letras são apresentadas aqui em suas versões instrumentais originais: “Nua ideia” (parceria com Caetano Veloso), “Lua dourada” (com Fausto Nilo) e “Não tem nada não” (com Eumir Deodato e Marcos Valle), sendo que esta terceira tem história para lá de curiosa. Ela nasceu como o tema instrumental “Batuque”, no álbum “Donato/Deodato” (1973), e, meses depois, ganhou a letra de Valle e seu novo título, sendo lançada por este no disco “Previsão do tempo” (também de 1973). Na hora de registrar a canção, Valle foi alertado por Donato que também seria coautor da melodia, já que o refrão tinha saído de um trecho de sua “Os grilos”. Na verdade, Donato explicou que tinha se inspirado num contracanto feito pelo naipe de flautas e saxofone do arranjo que Deodato criara para a gravação de “Os grilos” por Astrud Gilberto. Bendita, musical e natural confusão que virou um clássico desse trio de gigantes, e que, desde então, não para de ser tocado e regravado.

Também lançado no disco “Donato/Deodato”, o tema “Capricorn” volta agora revigorado pelo arranjo e pela execução imprimida, de pegada mais brasileira, pelo septeto. O mesmo vale para outras músicas do período, como “Malandro”, que fechava o álbum “A bad Donato” (1970); e “Rio Branco”, a homenagem à capital do Acre, onde ele nasceu (em 17 de agosto de 1934) e viveu até o início da adolescência, quando desembarcou em outro Rio, o de Janeiro.

Desde então, o caudaloso rio musical de João Donato não para de banhar o mundo. E o álbum “Bluchanga” é mais uma refrescante prova disso.

Antônio Carlos Miguel

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