Augusto Martins e Cláudio Jorge

Augusto, Claudio, mais 18 sambas. Essa é a comissão de frente do instigante projeto “Ismael Silva: uma escola de samba”. Obras sobre um artista atemporal.

Augusto Martins é cantor, maneja pandeiro com maestria no palco, e tem seis álbuns no currículo. Cláudio Jorge mescla composição e violão + voz, possuindo centenas de gravações iniciadas ainda no universo do long-play e mais de quatro trabalhos com seu nome na capa. Artistas, músicos cariocas que tabelam a paixão pela nossa enciclopédica cultura musical.

Entre muitas afinidades, uma saltou aos olhos entre acordes e timbres sincopados _ Mílton de Oliveira Ismael Silva na certidão de nascimento. Ou simplesmente _ simplesmente?!!? _ Ismael Silva.

“Ismael Silva: uma escola de samba” é um mergulho no universo desta lenda que fundou na década de 20 do século passado, o que para muitos pesquisadores delimita o pilar dos grêmios recreativos do Rio de Janeiro _ o cometa “Deixa falar” (bloco que desfilou entre 1929 e 1931).

Ismael foi o parceiro mais produtivo de Noel Rosa: 18 títulos. Com o autor de “Último desejo” há o registro neste trabalho de “A razão dá-se a quem tem (Ismael Silva/Noel Rosa/Francisco Alves)”, “Pra me livrar do mal (Ismael Silva, Noel Rosa e Francisco Alves)” e “Dona do lugar” (Noel Rosa, Ismael Silva e Francisco Alves). Coincidentemente, nas três faixas, o “Chico Viola” (leia o texto interno no encarte de Hugo Sukman _ acurado pesquisador musical e diretor do Museu da Imagem e do Som) completa a trinca.

Também conhecido como “O rei da voz”, foi Francisco Alves quem gravou o primeiro sucesso de Ismael há 90 anos _ “Me faz carinhos” (1925), além de ter apresentado Noel a Ismael (ou vice-versa). E apenas desses dois gênios também gravou a dilacerante “Quem não quer sou eu” _ lida neste CD de forma densa.

Antes da década de 30, o “pai das escolas de samba” e compositor afiado nascia para décadas de uma carreira midiaticamente irregular, mas nunca na ourivesaria da composição. Cláudio Jorge que o diga de cadeira, ou melhor, como memória de vida.

“Meu pai, Everaldo de Barros, foi crítico de música, o conhecia e o Ismael foi ao meu batizado”, revela o compositor. A opção estética que norteia as 18 gravações busca apresentar um Ismael numa roupagem original. “Na época das primeiras gravações, década de 20, as composições do Ismael tiveram tratamento orquestral. E ainda tivemos registros bem depois de “Se você jurar” ainda amaxixado. O CD tem cavaquinho, tambor, caixa, coisa que a turma do Estácio já sinalizava como tocar o samba”. Cláudio Jorge integrou a banda do próprio Ismael nos anos 70 durante três anos.

No arcabouço de músicos deste trabalho, a gentileza para tratar um repertório singular _ violão sinuoso na cadenciada “Contrastes” (“… Analisando essa estória/Cada vez mais me embaraço/Quanto mais longe do circo/Mais eu encontro palhaço”) e espaço para os sopros de Dirceu Leite (mais um a ter ciceroneado Ismael nos anos 70): flauta saracoteada já na abertura _ “O que será de mim”).

O repertório pontua as facetas de Ismael _ existencialmente platônico, brasileiro na lida diária (seu clássico “Antonico” é um totem do exercício de sobrevivência) e o malandro contumaz.

“Esta é uma canção de enorme beleza melódica e poética” _ observa Augusto. Segundo ele, o clássico “Antonico” revela “acuidade para tratar o coloquial, transformando o ouvinte num cúmplice, um parceiro da desventura”. Esse caráter de superação fica explícito em “Sofrer é da vida”. Desdobra o cantor _ “aqui eu vejo uma forma lúdica de suingar no canto como forma de driblar o perrengue”.
Milton de Oliveira ISMAEL SILVA é uma aula de cultura, de vida, brasilidade. Este CD foca uma persona que traduz o Brasil de ontem, hoje e amanhã. Cidadão que nos deixou em 1978. E que desde lá imortaliza o substantivo compositor.

“Ismael Silva: uma escola de samba” é um juramento amoroso.

Folha de São Paulo: https://goo.gl/XKPvxS

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